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Basílica da Santíssima Trindade


  Igreja da Santíssima Trindade - Considerações do arquitecto director do SEAC
2007-10-19


Considerações do arquitecto Erich Corsépius, director do SEAC, sobre a construção da Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima:

A – Introdução

Um ano após a tomada de posse do cargo do Reitor do Santuário de Fátima, em 1973, e após a introdução da nova estruturação dos seus serviços, começou a ser elaborado pelo SEAC (Serviço de Ambiente e Construções) um programa para os trabalhos de planeamento e construções que se impunham realizar a curto e longo prazo.

No aspecto de planeamento urbano, procurou-se colaborar com a Autarquia, mas dado não haver na altura um Plano de Urbanização completo para um aglomerado urbano em expansão, a área de actuação teve de se limitar ao Recinto e pouco mais. De resto, a zona do Santuário era a área urbanisticamente mais estabilizada e ordenada do aglomerado urbano.

De um primeiro concurso de ideias de arquitectura que se achou por bem realizar, dada a importância das realizações programadas, fazia parte a construção de um espaço coberto multiusos. A ideia era haver um edifício de tal maneira flexível que permitisse a celebração de assembleias litúrgicas, mas também encontros, congressos, espectáculos culturais tais como concertos, pequenas representações teatrais e outros. Havia igualmente a ideia que uma tal solução iria trazer uma redução substancial de custos.

Logo após a recepção das várias propostas e ainda durante a sua apreciação pelo júri, foi abandonada esta ideia, fortemente apoiada pelos membros estrangeiros do júri, um espanhol e outro alemão. A razão desta atitude baseava-se na experiência que ambos tinham tido nessa área.

Afirmavam que iríamos cair num edifício que “nem era peixe nem carne”. Segundo eles era indispensável caracterizar cada um dos espaços segundo a sua função. Por muito que pudessem ter em comum, cada parte iria perder especialmente a parte religiosa que não podia deixar de ser uma igreja, onde se iria celebrar a eucaristia. Este espaço, e especialmente em Fátima, não devia acumular qualquer outra função com o perigo de não atingir plenamente os objectivos que se pretendiam. Aliás, a redução de custos imaginada podia não ser tão grande como se tinha imaginado, dada a necessidade da sua flexibilidade, o que requeria certos mecanismos especiais. A eficácia de cada parte iria certamente ser afectada com a junção das duas funções.

Como resultado destas reflexões, foi decidido construir dois edifícios distintos escalados no tempo; um para fins de pendor mais culturais que veio a ser o Centro Pastoral Paulo VI e outro francamente uma igreja, a Igreja da Santíssima Trindade, agora concluída.

Foi dada prioridade à construção do Centro Pastoral porque a carência no sector da evangelização (congressos, encontros, etc.) foi tida como prioritária. Embora com algumas deficiências, o equipamento religioso existente funcionava. A programação cultural era mais simples e a localização mais fácil. Efectivamente verificou-se que a disponibilidade de um equipamento com estas características veio a facilitar a congregação de grupos numerosos nacionais e internacionais que de outra maneira não tinham possibilidade de desenvolver certas actividades e de as valorizar.
(Nota: O Centro Pastoral contém o maior auditório de Portugal: 2.140 lugares sentados).

Durante quase 2 anos foi depois elaborado o programa para a Igreja da Santíssima Trindade que nessa época se designou abreviadamente GECA (Grande Espaço Coberto para Assembleias). Dada a importância desta construção, não só para o Santuário mas também para a Igreja em geral e a própria cidade, estabeleceu-se um diálogo com a Autarquia para estudar a melhor solução urbanística para o provável local e implantação. Para dar um salto qualitativo na estrutura urbana da cidade foi feito, pela Autarquia em colaboração estreita com o Santuário, um concurso de ideias para reclassificação da Av. D. José A. C. Silva, admitindo o seu rebaixamento em frente do Recinto do Santuário. A ideia vencedora propôs uma solução que irá introduzir no aglomerado urbano uma mais valia ao estabelecer uma vasta zona pedonal desde a Rua S. Vicente de Paulo e a Av. João XXIII, ao transformar essa avenida num “boulevard” com redução substancial do trânsito automóvel e dando um toque artístico na passagem subterrânea de forma a evitar o aspecto de túnel utilitário convencional.

O somatório de todos estes factores contribuirão para que seja mantida e valorizada a característica de Fátima como cidade do peregrino – cidade da paz.

B – Projecto

No concurso de ideias para o projecto do GECA realizado a seguir, incluiu-se a solução de rebaixamento da Av. D. José A.C. Silva. Aliás, das alternativas de localização postas aos concorrentes: junto da Basílica ou perto da Av. D. José A.C.Silva, todos os proponentes escolheram esta última.

Na análise e revisão do projecto escolhido (Arq. Alexandros Tombazis) e aprofundando o uso que se lhe pretendia dar, introduziram-se algumas modificações programáticas antes de iniciar o projecto definitivo. Destas destacam-se a introdução de um espaço tipo “foyer” (hoje designado Convivium de Stº Agostinho) para ser utilizado nos intervalos quando o GECA for usado para a realização eventual de congressos, encontros, concertos musicais, pequenas peças teatrais, etc. Outra melhoria foi o desejo de criar maior comodidade e segurança aos peregrinos, suprindo todos os degraus no trajecto de acesso e circulação no espaço da assembleia substituindo-os por rampas suaves. Todo o edifício foi igualmente mais elevado do que o projecto inicial previa para torná-lo menos “enterrado”. Manteve-se a capacidade de cerca 9.000 lugares todos sentados, embora se tivesse admitido haver alguns lugares de pé para aumentar a capacidade. Esta ideia foi rejeitada linearmente por não oferecer condições aceitáveis aos participantes.

C – Destaques

Em nosso entender merecem especial realce os seguintes pontos:

C1 – Conteúdo (Mensagem)

O facto da nova igreja ser dedicada à Santíssima Trindade, tem um significado especial: revela em síntese toda a Mensagem de Fátima. Efectivamente já nas aparições do Anjo aos Pastorinhos na Loca do Cabeço foi sem dúvida a revelação da Santíssima Trindade, ponto central vívido intimamente pelos videntes.

A simplicidade plástica e funcional da arquitectura completada pela iconografia, contribuem, a nosso ver, para uma percepção diríamos quase intuitiva da simplicidade que é Deus e o seu mistério trinitário. Representado artisticamente logo no portal principal da igreja, a porta de Cristo na Santíssima Trindade chama-nos à atenção para a transcendência de Deus. Efectivamente no modo de representar o tema, o artista deliberadamente abandonou o modo “tradicional”: O Pai, um homem velho de barbas, o filho, um homem sentado ao lado com uma cruz numa das mãos e o Espírito Santo, uma pomba. A escolha vai buscá-la ao antigo e novo testamento: graficamente opta por representar nuvens lembrando o espírito do Senhor que pairava em forma de nuvens sobre a tenda da União; Deus que fala a Moisés através de nuvens quando entrega as tábuas da lei a Moisés, e na transfiguração do Monte Tabor Deus Pai a falar através de uma nuvem. Entre as nuvens do portal aparece ainda uma pomba como elo figurativo de ligação.

Ao entrar na zona da assembleia depara-se com o presbitério ao fundo, onde se destaca um grande crucifixo (o oferecimento do Filho ao Pai) e um grande painel em mosaico representando uma cena do Apocalipse. Todo este conjunto faz-nos percorrer o caminho em Fé, Esperança e Amor: do sacrifício à bem-aventurança do eterno. Aqui está outra vez a referência à Mensagem de Fátima que apela à conversão pela penitência, síntese do que Nossa Senhora pediu.

C2 – Simbologia / Linguagem / Comentários

A igreja situa-se praticamente no cruzamento dos dois grandes eixos dominantes de Fátima: Eixo Norte-Sul – Recinto e prolongamento para Sul com Centro Pastoral até à Av. João XXIII e eixo Oeste-Leste – Av. D. José A.C.Silva. Esta localização confere-lhe uma centralidade da qual resulta uma marca indelével no território. É o centro de uma cruz. É nitidamente visível do ar e perceptível mesmo ao nível do transeunte. Esta realidade será mais visível quando a reclassificação da Av. D. José, o arranjo à volta do C. Pastoral e o prolongamento urbanístico de Fátima para além da Av. João XXIII – o parque central previsto no P.U.F., estiverem concluídos.

Quanto à linguagem arquitectónica usada pelo autor, podemos dizer que é intemporal sem filiação em qualquer “escola”, tendências regionalistas ou outras. O que certamente podemos dizer é que a concepção do edificado é feita em termos de futuro.

Comparando por exemplo os “ingredientes” das primeiras grandes construções existentes no Santuário: Basílica e Colunatas, estas utilizaram “estilos” do passado muito ultrapassados já na sua época (1952). Ainda se vivia numa época na qual se ligava demasiadamente a piedade a certos “cenários” à priori adquiridos e assumidos, não deixando de ser uma estagnação no tempo.

Na nova igreja existe coerência e harmonia entre a estética e os princípios construtivos. Aliás certos requisitos programáticos seriam impossíveis de se realizarem, usando os princípios anteriores: por exemplo, o espaço da assembleia para 9.000 pessoas sem apoios intermediários.

Podemos afirmar com toda a propriedade que o caminho escolhido revela uma maior liberdade em todos os aspectos.

Outra nota positiva é o cuidado que se pôs em ser um edifício tanto quanto possível completo com recurso a todo o saber disponível. Houve tempos em que na hierarquia de valores aplicado à edificação religiosa havia, da parte da Igreja, demasiado peso das “beaux arts”.

Pensava-se que um determinado “cenário” bastava para criar um ambiente “religioso”. Neste edifício factores como comodidade, acústica, luminotécnica, visibilidade e outros requisitos importantes foram incluídos no programa.

Não se pretende desvirtuar o carácter penitencial e reparador que todo o peregrino de Fátima deve assumir ao vir a este lugar. Por isso todas as cerimónias que se possam realizar no Recinto devem ser feitas aí. O uso da Igreja destina-se à realização das cerimónias que por qualquer razão, principalmente as relacionadas com o tempo, não permitem ser realizadas no exterior. A Igreja é um equipamento complementar das actividades do Santuário.


Lisboa, 18.10.2007

Erich Corsépius, Arquitecto



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(C) Santuário de Fátima