Cristo ressuscitou. Está vivo para sempre. Esta é a proclamação que está no centro da celebração cristã da Páscoa. Jesus Cristo, que “passou pelo mundo fazendo o bem” e que, por amor, se deu até à morte, venceu a morte.
Aqui está o fundamento da nossa fé, o centro da fé cristã. A ponto de São Paulo afirmar: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1 Cor 15, 14). Acreditar na ressurreição de Jesus é atitude que afirma ou nega a fé cristã.
A primeira leitura apresentava-nos o núcleo da pregação cristã mais primitiva: Jesus Cristo, que passou fazendo o bem, foi morto, pregado numa cruz; mas “Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós”, diz São Pedro, “que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos”.
Se tudo tivesse terminado naquela cruz e na sepultura, Jesus seria apenas um belo exemplo humano a imitar, como outros ao longo da história. Os discípulos acharam-no extraordinário como homem e como profeta, mas se tudo terminasse naquela morte infamante, depressa cairia no esquecimento. Ninguém voltaria a falar de Jesus se, no terceiro dia após a sua morte, alguns dos que o conheceram e acompanharam não tivessem testemunhado convictamente que Ele se reerguera de entre os mortos e não estivessem convencidos de O terem visto vivo.
“Jesus Cristo Ressuscitou!” é a afirmação fundamental da fé dos discípulos e da nossa fé. É cristão quem acredita que Jesus ressuscitou.
Afirmar que Jesus Cristo ressuscitou é proclamar que está vivo! E vivo para para sempre. Cristo ressuscitado não pode já morrer: venceu a própria morte.
Apesar de Jesus ter anunciado aos discípulos que ressuscitaria ao terceiro dia, aqueles que O tinham acompanhado ao longo da sua vida pública não entendem. Mergulhados na angústia e no medo, perdidos e desorientados, procuram Jesus no túmulo. Tratava-se de uma realidade nova – a ressurreição – e não lhes era fácil acreditar. Assim, o Evangelho diz-nos que Maria Madalena foi a primeira a dirigir-se ao túmulo onde fora deposto o corpo de Jesus, na madrugada do primeiro dia da semana. Dá-se conta da ausência do corpo de Jesus e do túmulo vazio e vai dizê-lo os Apóstolos. Pedro e o discípulo amado correm ao sepulcro. Pedro foi o primeiro a entrar e “viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus”. Depois entrou o discípulo amado e o Evangelista sublinha o contraste com a atitude de Pedro: “viu e acreditou”.
Pedro vê os sinais da ausência de Jesus do sepulcro, mas não consegue ir além daquilo que os seus olhos veem. O outro discípulo, pelo contrário, vendo os mesmos sinais, acreditou.
Ninguém testemunhou o acontecimento da ressurreição de Jesus. A fé na ressurreição nasce dos encontros com Cristo ressuscitado e da compreensão dos sinais desse acontecimento único. Ontem como hoje, só a fé pode abrir os nossos olhos para esta realidade nova, capaz de transformar as nossas vidas.
Um escritor, numa obra famosa, afirma: “Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos” (A. de Saint-Exupéry). Julgo que a afirmação tem a sua melhor aplicação precisamente a este acontecimento que está no centro da nossa fé. Os olhos apenas captam o superficial, os sinais inconclusivos do túmulo vazio. Porque “o essencial é invisível aos olhos”, é apenas o olhar da fé pode perceber nesses sinais o acontecimento da ressurreição e a presença de Jesus Cristo vivo no meio de nós.
A celebração da Páscoa é, assim, um veemente apelo à nossa fé, a imitarmos a atitude do discípulo amado: “viu e acreditou”.
A Jesus não o podemos ver, hoje, como o viram aqueles que com Ele viveram durante a sua vida na Palestina. A presença do Ressuscitado é invisível aos olhos, mas a fé percebe os sinais da sua presença. Pela fé, reconhecêmo-Lo presente nas nossas vidas: através da Sua Palavra, nas nossas celebrações, de modo especial a da Eucaristia, naqueles com quem vivemos, nos acontecimentos que nos cercam...
Com os olhos da fé, podemos perceber a presença de Cristo ressuscitado sempre que nos esforçamos por vencer o egoísmo, as injustiças, e por fazer triunfar a compreensão e a atenção aos outros. Percebemos a presença de Cristo vivo em nós quando não nos fechamos nos nossos interesses e nos abrimos aos outros com gestos concretos de amor e entrega.
Celebrar a Páscoa significa renovar o nosso olhar, animado pela fé, para reconhecermos as muitas formas nas quais Cristo se faz hoje presente. Como o discípulo amado, também nós somos desafiados a ver os sinais dessa presença e a acreditar.
Pedro, na primeira leitura, afirma que aqueles que encontraram Cristo ressuscitado não podem deixar de proclamar esta boa nova e que essa missão de anunciar a ressurreição de Cristo é vontade do próprio Cristo: “Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos”. Como os Apóstolos, não podemos deixar de levar ao mundo de hoje este anúncio.
Na medida em que fazemos essa experiência da presença de Cristo vivo nas nossas vidas, tornamo-nos seus anunciadores. E o maior testemunho e anúncio da ressurreição que podemos dar é uma vida como a de Jesus que, como escutámos na primeira leitura, “passou pelo mundo fazendo o bem”.
Mas é igualmente fundamental o nosso testemunho de alegria, mesmo no meio das dificuldades da vida. Com demasiada frequência somos cristãos de Sexta-feira Santa, que se esquecem de manifestar a alegria da ressurreição.
Celebremos com alegria a Páscoa do Senhor, que nos amou e levou ao extremo esse amor, entregando a vida por nós, e, com o testemunho da nossa vida, proclamemos que Jesus Cristo está vivo para sempre!
Votos de uma Santa Páscoa para todos vós!
P. Carlos Cabecinhas, reitor
Recinto de Oração do Santuário de Fátima